Entenda Por Que a Deficiência do Complexo de Vitamina B Pode Causar Danos na Retina ou Glaucoma
- Alexandre Netto
- 31 de out. de 2025
- 8 min de leitura

A saúde ocular depende de uma complexa interação de fatores nutricionais, vasculares e metabólicos.
Entre os nutrientes essenciais para a manutenção da função visual, o complexo de vitamina B desempenha papéis cruciais que vão desde a proteção neuronal até a regulação do metabolismo energético celular.
Estudos recentes têm demonstrado associações significativas entre deficiências de vitaminas do complexo B e o desenvolvimento ou progressão de doenças oculares graves, incluindo degenerações retinianas e glaucoma.
Este artigo explora os mecanismos pelos quais a deficiência das vitaminas do complexo B pode comprometer a saúde ocular, com foco particular nos danos à retina e sua relação com o glaucoma.
O Complexo de Vitamina B e Sua Importância Neurológica
O complexo de vitamina B é composto por oito vitaminas hidrossolúveis: tiamina (B1), riboflavina (B2), niacina (B3), ácido pantotênico (B5), piridoxina (B6), biotina (B7), ácido fólico (B9) e cobalamina (B12).
Cada uma dessas vitaminas desempenha funções específicas no metabolismo celular, sendo particularmente importantes para o sistema nervoso.
O tecido nervoso, incluindo a retina e o nervo óptico, apresenta alta demanda metabólica e é especialmente vulnerável a deficiências nutricionais.
A retina, sendo uma extensão do sistema nervoso central, compartilha características neuronais semelhantes ao cérebro, incluindo alta taxa de consumo de oxigênio e dependência de substratos energéticos específicos.
Vitaminas do Complexo B com Maior Impacto na Saúde Ocular
Vitamina B1 (Tiamina)
A tiamina é essencial para o metabolismo de carboidratos e a produção de energia celular através da via da pentose fosfato. Sua deficiência pode levar a:
Comprometimento da função mitocondrial:
As células ganglionares da retina, responsáveis pela transmissão do sinal visual ao cérebro, possuem alta densidade mitocondrial. A deficiência de tiamina prejudica a produção de ATP, levando à disfunção e morte celular.
Acúmulo de metabólitos tóxicos:
A redução da atividade da transcetolase resulta em acúmulo de intermediários glicolíticos que podem causar estresse oxidativo.
Edema celular:
A deficiência grave pode causar edema nas fibras nervosas, incluindo as do nervo óptico.
Vitamina B12 (Cobalamina)
A vitamina B12 é fundamental para a manutenção da bainha de mielina e para a síntese de DNA.
Sua deficiência está associada a:
Neuropatia óptica: A deficiência de B12 pode causar desmielinização do nervo óptico, levando a uma condição conhecida como neuropatia óptica nutricional ou tóxica.
Degeneração das células ganglionares:
Estudos demonstram que a deficiência de B12 está associada à perda progressiva de células ganglionares da retina, semelhante ao observado no glaucoma.
Elevação da homocisteína:
A B12 é cofator na conversão de homocisteína em metionina. Níveis elevados de homocisteína estão associados a dano vascular e aumento do risco de glaucoma.
Vitamina B6 (Piridoxina)
A piridoxina participa de mais de 100 reações enzimáticas, especialmente no metabolismo de aminoácidos e neurotransmissores:
Metabolismo da homocisteína:
Juntamente com B12 e folato, a B6 é essencial para manter níveis adequados de homocisteína.
Síntese de neurotransmissores:
Participa da produção de GABA, dopamina e serotonina, neurotransmissores relevantes para a função retiniana.
Proteção antioxidante:
Auxilia na defesa contra o estresse oxidativo, fator importante na patogênese do glaucoma.
Vitamina B9 (Ácido Fólico)
O folato é crucial para a síntese de DNA e RNA, além de participar do metabolismo da homocisteína:
Prevenção de defeitos do tubo neural:
Durante o desenvolvimento fetal, é essencial para a formação adequada do sistema nervoso, incluindo as estruturas oculares.
Regulação da homocisteína:
Trabalha sinergicamente com B12 e B6 nesta função.
Proteção vascular:
Contribui para a manutenção da integridade vascular da retina e do nervo óptico.
Mecanismos de Dano Retiniano por Deficiência de Vitamina B
1. Hiper-homocisteinemia
Um dos mecanismos mais bem documentados é o aumento dos níveis plasmáticos de homocisteína quando há deficiência de vitaminas B6, B9 e B12.
A hiper-homocisteinemia causa:
Disfunção endotelial: Compromete a circulação sanguínea na retina e na cabeça do nervo óptico.
Estresse oxidativo:
A homocisteína promove a produção de espécies reativas de oxigênio.
Trombose:
Aumenta o risco de oclusões vasculares retinianas.
Excitotoxicidade:
Pode atuar como agonista de receptores NMDA, causando excitotoxicidade neuronal.
2. Disfunção Mitocondrial
As vitaminas do complexo B são cofatores essenciais em várias etapas da respiração celular:
Ciclo de Krebs:
Tiamina, riboflavina, niacina e ácido pantotênico são componentes essenciais.
Cadeia transportadora de elétrons:
A deficiência compromete a produção de ATP.
Apoptose celular:
A disfunção mitocondrial pode desencadear morte celular programada nas células ganglionares da retina.
3. Estresse Oxidativo
A deficiência de vitaminas B compromete os sistemas antioxidantes celulares:
Redução do glutationa:
A B2 é necessária para a regeneração do glutationa, principal antioxidante celular.
Acúmulo de radicais livres:
O desequilíbrio entre oxidantes e antioxidantes danifica lipídios, proteínas e DNA.
Peroxidação lipídica:
Danifica as membranas celulares, particularmente importantes nos fotorreceptores.
4. Desmielinização
A deficiência de B12 causa desmielinização progressiva:
Nervo óptico: A perda da bainha de mielina compromete a condução do impulso nervoso.
Fibras nervosas retinianas:
Pode afetar a camada de fibras nervosas da retina.
Irreversibilidade:
Se não tratada precocemente, pode resultar em dano permanente.
A Conexão com o Glaucoma
O glaucoma é uma neuropatia óptica caracterizada por perda progressiva de células ganglionares da retina e dano ao nervo óptico, frequentemente (mas nem sempre) associada a pressão intraocular elevada.
Estudos recentes sugerem múltiplas conexões entre deficiência de vitaminas B e glaucoma:
Hiper-homocisteinemia e Glaucoma
Pesquisas demonstram que pacientes com glaucoma apresentam níveis significativamente mais elevados de homocisteína plasmática em comparação com controles saudáveis.
Os mecanismos propostos incluem:
Disfunção vascular:
A hiper-homocisteinemia compromete a autorregulação do fluxo sanguíneo ocular, importante fator de risco para glaucoma normotensivo.
Neurotoxicidade direta:
A homocisteína pode ser diretamente tóxica para as células ganglionares da retina.
Aumento da pressão intraocular:
Alguns estudos sugerem que a hiper-homocisteinemia pode estar associada a alterações na dinâmica do humor aquoso.
Deficiência de B12 e Glaucoma
Estudos observacionais e casos clínicos relatam:
Neuropatia óptica que mimetiza glaucoma:
A deficiência de B12 pode causar escavação do disco óptico e perda de campo visual semelhantes ao glaucoma.
Progressão acelerada:
Pacientes com glaucoma e deficiência de B12 podem apresentar progressão mais rápida da doença.
Resposta ao tratamento:
A suplementação de B12 em pacientes deficientes pode estabilizar ou até melhorar alguns parâmetros da função visual.
Estresse Oxidativo como Via Final Comum
Tanto o glaucoma quanto a deficiência de vitaminas B compartilham o estresse oxidativo como mecanismo de dano:
Células ganglionares vulneráveis:
São particularmente susceptíveis ao dano oxidativo devido à alta demanda metabólica.
Disfunção mitocondrial:
Presente tanto no glaucoma quanto nas deficiências de vitamina B.
Neuroinflamação:
Ambas as condições podem desencadear processos inflamatórios que amplificam o dano neural.
Manifestações Clínicas da Deficiência de Vitamina B na Visão
As manifestações oftalmológicas da deficiência de vitaminas do complexo B podem incluir:
Sintomas Precoces
Visão turva ou embaçada
Dificuldade para enxergar em ambientes com pouca luz
Sensibilidade aumentada à luz (fotofobia)
Distorções visuais
Redução da visão de cores (discromatopsia)
Sinais ao Exame Oftalmológico
Palidez ou edema do disco óptico
Escavação aumentada do nervo óptico (similar ao glaucoma)
Hemorragias retinianas em casos de anemia perniciosa
Defeitos de campo visual (escotomas centrais ou cecocentrales)
Redução da espessura da camada de fibras nervosas da retina na tomografia de coerência óptica (OCT)
Estágios Avançados
Atrofia óptica
Perda visual severa ou cegueira
Dano irreversível mesmo após tratamento
Populações em Risco
Certos grupos populacionais apresentam maior risco de deficiência de vitaminas do complexo B:
Fatores Dietéticos
Vegetarianos e veganos:
Risco particular para deficiência de B12, encontrada principalmente em alimentos de origem animal
Desnutrição:
Dietas pobres em variedade nutricional
Alcoolismo: Interfere na absorção e metabolismo de tiamina
Condições Médicas
Doenças gastrointestinais:
Doença de Crohn, colite ulcerativa, doença celíaca
Cirurgias bariátricas:
Reduzem a absorção de nutrientes
Gastrite atrófica:
Compromete a absorção de B12
Anemia perniciosa:
Deficiência de fator intrínseco necessário para absorção de B12
Medicamentos
Metformina:
Reduz absorção de B12
Inibidores da bomba de prótons:
Comprometem absorção de B12
Anticonvulsivantes:
Interferem no metabolismo do folato
Outros Fatores
Idade avançada:
Redução da absorção gastrointestinal
Gravidez e lactação:
Aumento da demanda
Tabagismo:
Interfere no metabolismo das vitaminas B
Diagnóstico da Deficiência de Vitamina B
O diagnóstico envolve múltiplas abordagens:
Avaliação Laboratorial
Dosagem sérica:
Níveis de B1, B6, B9 e B12
Homocisteína plasmática:
Marcador funcional de deficiência de B6, B9 e B12
Ácido metilmalônico:
Marcador mais específico de deficiência de B12
Hemograma completo:
Pode revelar anemia megaloblástica
Avaliação Oftalmológica
Acuidade visual:
Detecta redução da função visual
Teste de visão de cores:
Identifica discromatopsia
Campo visual:
Revela escotomas característicos
Tomografia de coerência óptica (OCT):
Avalia espessura da camada de fibras nervosas
Potencial evocado visual:
Avalia função do nervo óptico
Fundoscopia:
Examina nervo óptico e retina
Correlação Clínico-Laboratorial
É essencial correlacionar achados laboratoriais com manifestações clínicas, pois:
Níveis limítrofes podem causar sintomas em alguns indivíduos
A apresentação clínica pode preceder alterações laboratoriais significativas
A resposta ao tratamento pode ser diagnóstica
Tratamento e Prevenção
Suplementação Terapêutica
O tratamento da deficiência estabelecida geralmente requer doses suprafisiológicas:
Vitamina B1 (Tiamina)
Oral: 50-100 mg/dia
Intramuscular: 100 mg/dia em casos graves (encefalopatia de Wernicke)
Vitamina B12 (Cobalamina)
Oral: 1000-2000 mcg/dia (quando absorção está preservada)
Intramuscular: 1000 mcg/dia ou semanalmente, depois mensalmente
Sublingual: 1000-5000 mcg/dia
Vitamina B6 (Piridoxina)
50-200 mg/dia (atenção ao limite superior para evitar neuropatia)
Ácido Fólico
1-5 mg/dia (sempre associado à B12 para evitar mascarar deficiência)
Tratamento da Causa Subjacente
É fundamental identificar e tratar a causa da deficiência:
Correção de problemas gastrointestinais
Modificação dietética
Ajuste de medicações que interferem na absorção
Tratamento de alcoolismo
Monitoramento
Pacientes em tratamento devem ser acompanhados com:
Reavaliação laboratorial periódica
Exames oftalmológicos seriados para documentar estabilização ou melhora
Avaliação da resposta clínica (melhora dos sintomas)
Prevenção
Para populações em risco, medidas preventivas incluem:
Suplementação profilática:
Especialmente em vegetarianos/veganos (B12), idosos e gestantes
Fortificação alimentar:
Muitos países fortalecem cereais com ácido fólico
Educação nutricional:
Orientação sobre fontes dietéticas
Rastreamento:
Em grupos de alto risco (pós-cirurgia bariátrica, uso crônico de metformina)
Perspectivas Futuras e Pesquisas Emergentes
Estudos recentes e em andamento estão explorando:
Neuroproteção no Glaucoma
Ensaios clínicos investigando se a suplementação de vitaminas B pode desacelerar a progressão do glaucoma
Pesquisas sobre o papel da redução da homocisteína na proteção das células ganglionares
Estudos de combinações de vitaminas B com outros neuroprotetores
Biomarcadores
Desenvolvimento de marcadores mais sensíveis e específicos de deficiência funcional
Uso de OCT e outras tecnologias de imagem para detecção precoce de dano retiniano
Identificação de polimorfismos genéticos que aumentam vulnerabilidade à deficiência
Terapias Inovadoras
Formulações de liberação prolongada
Vias alternativas de administração (nasal, transdérmica)
Terapias combinadas visando múltiplos mecanismos de neuroproteção
Medicina de Precisão
Identificação de subgrupos de pacientes que mais se beneficiariam da suplementação
Personalização de doses baseada em fatores genéticos e metabólicos
Integração de dados nutricionais, genéticos e clínicos
Considerações para a Prática Clínica
Oftalmologistas e profissionais de saúde devem considerar:
Alto Índice de Suspeição
Investigar deficiências de vitamina B em pacientes com neuropatia óptica inexplicada
Considerar dosagem de homocisteína em pacientes com glaucoma, especialmente normotensivo
Avaliar status nutricional em populações de risco
Abordagem Multidisciplinar
Colaboração com nutricionistas e nutrólogos
Comunicação com médicos de outras especialidades (gastroenterologistas, neurologistas)
Encaminhamento apropriado quando indicado
Educação do Paciente
Informar sobre a importância da nutrição para saúde ocular
Orientar sobre fontes dietéticas de vitaminas B
Alertar grupos de risco sobre necessidade de suplementação
Tratamento Oportuno
Iniciar tratamento precocemente quando deficiência é detectada
Não aguardar confirmação laboratorial se suspeita clínica é alta e risco de dano irreversível existe
Reavaliar resposta ao tratamento periodicamente
Conclusão
A deficiência do complexo de vitamina B representa uma causa tratável e potencialmente prevenível de dano retiniano e neuropatia óptica.
Os mecanismos envolvem disfunção mitocondrial, hiper-homocisteinemia, estresse oxidativo e desmielinização, processos que compartilham vias patogênicas com o glaucoma e outras doenças neurodegenerativas oculares.
A conexão entre deficiência de vitaminas B e glaucoma é particularmente intrigante, sugerindo que a otimização do status nutricional pode representar uma estratégia adjuvante na prevenção e manejo desta doença devastadora.
Embora mais estudos sejam necessários para estabelecer protocolos definitivos de suplementação no contexto do glaucoma, as evidências atuais suportam a importância de manter níveis adequados dessas vitaminas.
O reconhecimento precoce da deficiência e o tratamento apropriado são essenciais, pois o dano pode tornar-se irreversível se não tratado em tempo hábil.
Populações em risco devem ser rastreadas proativamente, e oftalmologistas devem manter alto índice de suspeição ao avaliar pacientes com sintomas visuais inexplicados ou neuropatia óptica.
À medida que nossa compreensão dos mecanismos moleculares e celulares do dano visual relacionado à deficiência nutricional avança, novas oportunidades terapêuticas podem emergir.
A integração de avaliação nutricional no cuidado oftalmológico rotineiro, especialmente em pacientes com glaucoma ou outras neuropatias ópticas, pode representar um avanço significativo na preservação da função visual.
Referências sugeridas para aprofundamento:
American Academy of Ophthalmology - Optic Nerve Disorders
Estudos sobre homocisteína e glaucoma em periódicos como Ophthalmology e Investigative Ophthalmology & Visual Science
Guidelines nutricionais da World Health Organization
Publicações sobre neuropatia óptica nutricional e deficiência de vitamina B12
Este artigo tem finalidade educacional. Pacientes com sintomas visuais devem procurar avaliação oftalmológica especializada. Suplementação vitamínica deve ser orientada por profissional de saúde após avaliação adequada.




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